"As obras de Dirce Korbes inferem de imediato uma proposta reflexiva. Reflexão de “modo outro” que se dá através da pintura. No jogo do velar-se e se desvelar das silhuetas que se instalam nestas pinturas detecta-se o humano, ou melhor, o que há de demasiado humano em nós: a existência. Ali estão andarilhos e suas sombras, o que somos.
Através das monotipias realizadas com moldes de figuras humanas recortadas em panos ou em papéis, de colagens, de tecidos desgastados e torcidos pelas mãos da artista, e através das alternâncias de luz e sombra, que fazem parte de sua busca pelo translúcido, instala-se o movimento único em que técnica e reflexão se fundem como expressão da arte. A partir de então, vela-se e se desvela o mundo do qual participamos em toda a sua profundidade existencial. Ali estão indivíduos inseridos no mundo urbano que se insinua ao fundo. Indivíduos sem rostos que se alternam no amplo espaço das telas, na teia das relações, no mistério da luz que os transforma em sombras.
O que esse jogo das silhuetas humanas vela e desvela, é a alternância entre a realidade e nossas relações com a mesma. Parte de nossa contínua busca pela felicidade na ampla rede de âmbitos apresentados pela contemporaneidade. Ali está a nossa existência e suas sombras. As sombras são o que há de obscuro na realidade e o que faz das pinturas de Dirce uma filosofia através da arte. Um mergulho profundo no fato de que “estamos” radicalmente instalados no mundo.
Para Dirce o indivíduo que ali se encontra é um indivíduo positivo, livre, sem preconceitos. Podemos vê-los ainda, como caminhantes em êxodo, sempre em busca da Terra Prometida. Indagamos: para onde seguem estes indivíduos que ali caminham sem linha sob seus pés? Qual Terra Prometida almejam esses caminhantes da contemporaneidade? Sem crenças e sem limites, caminham no deserto de amplos campos de cor ocre, sob a luz tênue das propostas urbanas. Inúmeras vezes cercados por quadrados e envolvidos em cordões. Como separar tais imagens de nós mesmos?
Vejo ali, eu e minhas sombras, eu e minhas tramas com a realidade, eu e esse “absolutamente outro” que sou para mim mesmo."
Anita Prado Koneski
Professora de Filosofia da Arte, do Centro de Artes-CEART,
da Universidade do Estado de Santa Catarina,-UDESC.
"Filiada às pesquisas contemporâneas em pintura, a obra de Dirce Körbes – que vem abrindo seu próprio espaço entre os jovens artistas catarinenses – valoriza a trajetória do gesto na tela, revelador de uma entrega emocional, de um debruçar-se sobre valores e conflitos humanos, que o vigor cromático intensifica e confirma.
Trazidas para a temporalidade, as formas são projetadas das profundezas magmáticas, lá onde pulsam os materiais expressivos primprdiais.
Nestas condições, as telas de Dirce renunciam necessariamente à beleza ornamental em busca de uma emocionalidade mais intensa, conferindo às formas reminiscências ancestrais, e que, a partir do domínio do simbólico, articulam sua força expressiva sobre o espectador..."
Jandira Lorenz , Artista Plástica e professora
(1991)
"Conheço o trabalho de Dirce faz alguns anos, tendo inclusive a oportunidade de orientá-la por algum tempo numa oficina ligada a experimentação com a cor e, conseqüentemente, com a forma e os processos criativos.
Esta proximidade com a artista facilita a elucidação de questões que gostaria de afirmar aqui como irradiadoras.
Na época da oficina e acredito que isto não mudou, (somente aumentou de intensidade), Dirce iniciava sua pintura através de um não pensar, o que lhe remetia por um caminho bastante difícil, às vezes paradoxal, e no andamento das pinturas manifestava um pensar sobre o que estava acontecendo.
Isto é o suficiente para afirmar que Dirce realiza a pintura confiando no desconhecido, aos poucos verificando-o com uma certa tensão e com um sentido analítico que a princípio estava voltado para as formas cubistas. Na realidade, já nestes princípios, Dirce estava trabalhando com a terceira dimensão, compondo o volume das formas de sua imaginação em contato crescente com o abstrato que hoje predomina em suas pinturas, mantendo-as com organicidade. Isto não invalida a diferença que é significante no emprego da cor. Ora ela se volta para o predomínio de cores vibrantes e ora para as cores sombrias. Penso na junção destas vertentes opostas e concebidas separadamente, fazendo-as conviver em um mesmo plano. Vale pensar nisto porque há uma necessidade interna que em períodos determinados proporciona a Dirce uma oscilação perceptiva do que está nela e fora dela.
A abstração, portanto, não vem do nada como muitos pensam, a não ser que este nada seja e tenha a conotação que tem o vazio para os orientais. Para eles é no vazio onde estão todas as coisas. A abstração é por códigos e símbolos, há um impulso inicial que ganha forma e dá forma e, assim, nas pinturas de Dirce é o processo pictórico que vale e está em movimento e se fazendo a todo instante. Como a sua evolução tem sido desta maneira, recentemente apareceu um dado novo em sua pintura: a linha. Nada melhor para se considerar a qualidade de um artista do que o apuro no emprego da linha. É nela que está o aspecto mais pessoal, a verdadeira individualidade expressiva. Em contrapartida, a abstração nos faz entrar em contato com um sentimento metafísico onde não se pode descartar a impessoalidade.
Eis, portanto, mais um par de opostos. Outros pares estão presentes e como todos sabem, os opostos se complementam. Com estas irradiações que se atritam entre si, concluo que a unidade está na diversidade, na diferença. Tanto na arte como na ciência e na filosofia esta questão é fundamental. E como tudo no mundo é paródia, fazer arte é respirar. O ar do azul não é o mesmo do amarelo e ambas as cores compõem o ciano, que em cor-luz não pode ser decomposto, sendo desta maneira cor-luz primária. A matéria e a ausência da matéria tem estas propriedades inquietantes. Cabe ao pensar e ao fazer bloquear o que há na diferença e na identidade. "
Jayro Schmidt, Artista Plástico e professor de arte
Fevereiro de 1990.
English
Critic coments:
he works of Dirce Korbes immediately suggest a reflexive proposal. A
way of reflection that happens through her paintings. In the game of
appearing and disappearing silhouettes, present in her work,
one can see what's human, what's most human within us: existence.
There they are, drifters and their shadows, representing what we are.
Through monotyping human figures on paper or fabric MOLDES, COLAGES, shredded
tissue and through the alternance of light and shade, a part of the search
for translucence, a unique movement is established in
which technique and reflection merge as an art expression. Afterwards,
a world of which we are a part appears and disappears in all its
existential depth.
Individuals appear in a suggested urban environment. Individuals
without faces appear and disappear on canvas, on the web of
relationships, in the mystery of the light that turns them into
shadow. What appears and disappears in this game of silhouettes is the
alternance between reality and our relationship with it. Part of our
continuous search for happiness in the wide web of possibilities
presented by contemporaneity.
There it is, our existence and its shadows. Shadows are what's dark in
reality and what makes Dirce's paintings a way of philosophy through
art. A deep dive in the fact that we are radically installed in the
world. For Dirce those individuals are free, positive and free of any
discrimination. We can also look at them as drifters on the run, in
search for the Holy Land.
We ask: where are these individuals going, who walk without lines under
their feet? What Holy Land are these drifters of contemporaneity
seeking?
With no beliefs and boundaries, they walk in this desert of OCRE
color, under the dim light of an urban cityscape. Countless times
surrounded by squares and lines. How could we set that apart from
ourselves? There I see me and my shadows, me and my weavings with
reality, me and this someone else that I am to myself.
Anita Prado Koneski
Philosophy of Art Teacher of the Arts Center - CEART, at the
University of the State of Santa Catarina - UDESC.
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